Trabalho realizado durante a 5ª edição da residência casa del mar, verão 2026, SEREIAS E NAUFRÁGIOS, mentoria de Maximiliano Venturini e apoio da equipe da Casa Del Mar, Juliana Leiva e Nicolás Stancich.
Uma criatura na água mistura luz e escuridão.
Uma figura psamófila, do grego psámmos, «areia» +phílos, «amigo».
Um habitante da constelação de Puppis desaba na areia,
um farol na costa que precisa encontrar algo caído do céu na vastidão das dunas.
Desastrum no sul, o céu desmorona, desorienta, há fragmentos, as estrelas se desprendem à deriva, se afastam, o firmamento gira, a água invade, penetra, abre sulcos, praias, cabos, penínsulas, ilhas. O naufrágio da inocência navega caudas, esqueletos, corpos, escamas, omoplatas, mastros, cascos, conchas, caixas, tampas, proas, popas, quilhas, barbatanas multicoloridas, ruído de emissão nebulosa e vagueando no ar. Puppis se abre para o desastre sem fim, as estrelas despencam do colapso. Carina, Vela, Estojo, os olhos queimam, pesam, afundam. Caveira e ossos cruzados. Criaturas psamófilas prosperam em dunas de areia, áreas arenosas, faixas, encostas. Caminham com garras, dentes, crânios, mordidas rápidas e afiadas na cabeça, marcas fossilizadas, conchas, crustáceos submersos em uma cápsula oscilante. Kianda despovoa o continente africano, dá oportunidade ao acidente, descarrega, busca ajuda diante da incerteza das correntes. Há luzes, bóias, faróis, garrafas, fauna de pescadores. Talvez carreguem mensagem, passagem, oferenda. Ela avança algumas casas, alcança a areia. O deserto está inscrito em relevo. Revela. montes, brotos nutrientes, carbonato de cálcio, fragmentos de coral, organismos microscópicos, fragmentos de rocha, esqueletos de animais marinhos, pássaros, unhas, dentes, crânios, centros semiovais, corona radiata, microangiopatia degenerativa, dizem que a busca se curva à força da areia o que o céu lançou ao corpo em jogo flexiona, levanta, reúne ou sacode abjeto o esfenóide, o ar azeda, fede, rasga substância resinosa dos lobos frontal e parietal, entranhas, cartilagens viscosas e queratinosas à mercê das correntes, entre detritos e estrelas, ela poderia ter ouvido as profundezas do céu desabando, mas há cera demais em seu umbigo.
"...seus pés, àquela altura, já eram outra coisa: um par de bichos disformes. Dois animais dentados e imundos.
Duas bestas, presas aos tornozelos, incansáveis, avante, um depois do outro, avante...
a cabeça do santo, socorro acioli"
Fotografia digital
"Brisa marinha (Brise marine)
Stéphane Mallarmé
A carne é triste e eu, aí! já li todos os livros.
Fugir! Fugir p’ra longe. Oiço as aves aos gritos
Ébrias na espuma ignota e sob o céu, em bando!
Nada, nem vãos jardins nos olhos se espelhando
Retém meu coração que se embebe de mar,
Oh noite! nem a luz da candeia a alumiar
O deserto papel que a brancura defende;
Nem mesmo jovem mãe que seu filho amamente.
Hei-de partir! Vapor em marítimas crises,
Iça o ferro e faz rumo a exóticos países.
Um tédio triste, em cruel e inútil esperar,
Crê no supremo adeus dos lenços a acenar.
Que os mastros, porventura, atraindo presságios,
São os mesmos que um vento inclina nos naufrágios.
Soltos no mar, no mar, sem ilhas nem esteiros.
Mas ouve, coração, cantar os marinheiros.
Tradução de Herculano de Carvalho"