Pássaros Lacunares

2024
Exposição na Biblioteca da Faculdade de Letras do Porto

A exposição de Bete Esteves na Biblioteca da FLUP é resultante da fricção entre a poética da artista e a escrita fabular de Isabel Pereira Leite, datada de 2011. A autora do texto, por sua vez, foi impulsionada à referida escrita pelo quadro de Armanda Passos, instalado na parede da entrada da Biblioteca, no qual o vôo noturno dos pássaros, criaturas misteriosas, fazem sentir o vento. O texto trata dos movimentos desses seres que ganham vida quando a Biblioteca escurece. Antes que a artista Bete Esteves encontrasse o título da exposição, aconteceram dobras sobre dobras: fabulações das fabulações, vôos dos vôos, lacunas das lacunas, lendas de lendas.

Na área de estar, que antecede a chegada à torre principal do edifício, uma ambiência criada pela artista nos coloca num tempo modificado, lento, e o lugar se torna sensivelmente quente. Uma paisagem escurecida e ao mesmo tempo incandescente. É nesse cenário que um certo drama se instala e afeta os que por ali transitam. Nas vitrines, vê-se um conjunto de livros de uma Enciclopédia luso brasileira, esculpidos pela curiosidade de alguém que está sempre à espreita de algo entre páginas e letras. Os livros, na invenção da artista, se tornam peças híbridas de topologia singular. Transformados pelas faltas. Pela descoberta de outras lacunas nunca antes reveladas. Dos livros, foram extraídos os corpos dos pássaros. Os vazios deixados por eles nos conduzem a uma percepção de múltiplos efeitos. As fendas que se revelam entre as páginas configuram-se como uma estudo topográfico detalhado do corpo ausente quando o livro é apresentado aberto. A formação de figuras rotacionadas que inventam corpos, mundos e outras lendas.

Segundo a artista “Os livros são simultaneamente pássaros e ninhos. O lugar onde vivem e de onde partem”. Deles se soltam as criaturas que ganham vida e liberdade para voar sobre oceanos, cruzar continentes, explorar cada estreito, baía, floresta, montanha, buraco representados em mapas resgatados de coleções que pertencem à biblioteca, e que ganham vida nas vitrines da casa que os guarda. Colocados ali, sob os vidros das vitrines, os mapas permitem um leque de possíveis fabulações sobre as origens desses seres e de suas histórias.

À uma luz baixa, essas obras nos convidam a vê-las bem de perto e a observar
devagar. Visão que engloba diferentes escalas, das miniaturas à imensidão. Bete Esteves nos oferece em seu gesto poético uma fenda no cotidiano. Uma lacuna. Um lugar de passagem. Histórias várias, que cada observador pode encontrar ou construir enquanto adentra fendas e lendas que a artista articula ao permitir que entremos nos espaços lacunares que criou. Dobras de fábulas, ecos de bater de asas, silêncios como pausas, cantos de pássaros, sons de oceanos...

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Lacunar Birds

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