Ainda somos seis

2025
Ferro, rolamento, azulejo de faiança, semente e argila.

Carrinhos de ferro sustentam azulejos brancos abertos, de formato semicircular, com uma faixa azul pintada em uma das extremidades. Nos telhados, esses tipos de azulejos de acabamento são colocados sobre outros azulejos decorados. Aqui, instalados com o lado curvo voltado para dentro, essas formas simples funcionam como calhas, telhas de rampa para a queda e a queima. Esculpidos internamente com desenhos florais, tornam-se berçários para certas sementes. Os frágeis canais de faiança são habitados por sementes igualmente delicadas, sedentas por nutrientes. Juntas, elas aguardam a desintegração da esfera de terracota polida que repousa no ponto mais alto do azulejo.

As sementes sonham com chuva, garoa, orvalho e com a decomposição da matéria — anseiam que a argila vermelha penetre em suas frestas em brotação. Com a sorte do bom tempo, a bola de argila escorre pelos sulcos gravados na faiança vitrificada, germinando as sementes e arriscando-se a criar desenhos imprevisíveis.

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"Como essas reles coisas mantêm a continuidade da estória? Ou talvez - ainda pior para o herói -, como podem essas coisas côncavas, escavadas, esses buracos no Ser, gerar estórias mais ricas, mais peculiares, mais abundantes, mais inadequadas e contínuas, desde o início? Estórias que têm espaço para o caçador, mas que não eram e não são sobre ele, o Humano autoprodutor, a máquina produtora de humanos da história. A leve curvatura da concha que contém só um pouco de água, só algumas sementes para dar e receber sugere estórias de devir-com, de indução recíproca, de espécies companheiras cuja tarefa ao viver e morrer é justamente não terminar a contação de estórias, a mundificação. Com uma concha e uma rede, devir humano, devir húmus, devir terrano toma outra forma: a forma sinuosa e serpenteante de devir-com.
Semear mundos. Uma bolsa de sementes para terraformar com alteridades terrestres.
Donna Haraway"