O percurso poético e investigativo do projeto, Que(m) sabe do que(m) sou feita, iniciado em março de 2023, tem como motor o programa Crafting, voltado à experimentação de processos artísticos em diálogo com a vida e com a noção de reparação sensível. Toda a experimentação aconteceu durante residências em Portugal na Trust Collective, no Barril de Alva e no Espaço AND Lab em Lisboa, com acompanhamento de perto em perto de Fernanda Eugenio.
O trabalho parte de uma experiência profundamente pessoal e simbólica: a casa familiar da artista no Rio de Janeiro, de origem portuguesa, hoje abandonada. Marcada por memórias e afetos de longa duração, essa casa, é símbolo de ancestralidade, ponto de condensação de histórias familiares intensas. As telhas antigas e decoradas que cobrem o beiral do telhado, feitas artesanalmente, começaram a quebrar e cair, coincidindo com uma experiência corporal da artista, o desgaste e a quebra de lascas de dentes. Essa coincidência tátil foi o ponto de partida do trabalho. Os arranhões produzidos nas mãos com a manipulação dos cacos, o arranhar da língua na ausência das lascas de dente, o som do motor da retífica do dentista e as sonoridades produzidas pela manipulação dos próprios cacos de faiança tornaram-se o ponto de inflexão de um processo de criação e cura. A artista reconhece nesse paralelismo um padrão de fragmentação, tanto material quanto emocional, que atravessava gerações. A ruína da casa espelhava um “não olhar coletivo”, um descuido transmitido como herança familiar. A partir daí, Bete iniciou uma jornada de remembração, explorando como reparar, através da arte e do manuseio da matéria, aquilo que se rompeu no campo dos afetos, da linguagem e do corpo. Desse gesto de reparação nasceram os primeiros objetos – primeira etapa do projeto: fragmentos de telha transformados em projéteis, em dados, em peças que materializam o acaso, o jogo e o destino.
| FASE 1 | ARAPUCAS
Durante a pesquisa e experimentação emergiu o afeto da partida que encarnou-se em quatro modulações e forças, quatro arapucas: | 1. PARTIDA | se parte de cima para baixo, despedaça, gravidade; | 2. PARTINDO | se parte de baixo para cima, aperta, cria vácuo, empuxo, arraste; | 3. SE PARTIU | se parte de dentro para fora, irrompe, racha, trinca; | 4. PARTI | se parte de fora para dentro, amassa. Com essas modulações foram desenvolvidas 4 arapucas que tinham como componentes projéteis de argila, cada uma com suas propriedades específicas.
| FASE 2 | PARTI | SE PARTIU
Na segunda fase do projeto o foco foi na modulação do movimento de fora pra dentro, SE PARTIU. O que fora um grito, via megafone, tornou-se gesto expansivo figurado num grande desenho que acompanhou escrita expontânea. A modulação PARTI, do movimento de dentro para fora que, via de regra, promove uma partida interno e se armou em forma de terço expandido. Desse processo, retrospectivamente, emergem um megafone feito de telhas acompanhado por grandes desenhos e a suspensão de pedras portuguesas retiradas das calçadas.
Foi no ato de retirar as pedras das calçadas que a ideia de suspender o terço utilizando o conjunto recolhido veio à tona. Na época, imaginava-se gravar algo nas pedras e devolvê-las à calçada. Em seguida, compreendeu-se que o próprio terço poderia se vincular às localizações das casas que usavam as mesmas telhas da casa familiar. Após a localização dessas casas e cidades, formou-se a melhor configuração possível para um terço cósmico. Essa sobreposição revelou o caráter espiritual do percurso, que passou a ser compreendido como uma “viagem do desengano”, aliada à “viagem do desenterro” — uma peregrinação em busca da cura dos vínculos e da reconfiguração do destino familiar. Duas viagens conjugadas em uma.
"Uma formação submetida a esforços: compressão, tração, torção, quedas, um conjunto de fracturas. Quês e quens metem-se pela carne, estilhaços de faiança, calcários irregulares, troços de argila e barbutina, quelóides."
Que(m) sabe de que(m) sou feita | FASE 3 |
| FASE 3 | ROMARIA
Na terceira fase do projeto, a partir de pesquisa e de mapeamento prévio de casas que utilizavam o mesmo tipo de telha, a artista criou uma viagem performativa entre seis cidades portuguesas, locais onde ainda existiam casas com o mesmo tipo de telha. Nessa fase são usados os dados de faiança e um tabuleiro.
Em cada cidade a artista batia à porta dos endereços pesquisados, oferecia um dado e propunha um jogo: uma troca simbólica. O dado, ao ser lançado, indicava um dos temas: autorretrato, religião, guerra, sexo, morte e vida, que guiava a conversa e a troca com quem a recebia. A cada jogada o dado era oferecido a quem o jogasse e a cada retorno de dado, a cada encontro, algo se ativava e, simultaneamente, alguma camada da história familiar, convertendo o gesto lúdico em um rito de reconhecimento.